20 abril, 2006

Faltas (de disciplina)

Falou-se na semana passada, que um grupo bastante ecuménico de marmanjos que se baldou ao trabalho para se poder fazer à estrada antes que a manada dos comuns mortais começasse a sua migração sazonal para sul, ao encontro de luz para os seus fatos de banho e pastos verdejantes para as suas bolas (de golfe, claro...). Honestamente, até eu, se não tivesse que andar a contar os trocos para passar um fim-de-semana mais folgado aqui no Porto; se tivesse um bom carro, uma vida calma e segura, se tivesse uma família que se recusasse a ter uma Páscoa virada para o que esse feriado realmente significa, se tivesse inclusive (como muitos daqueles ilustres senhores têm) um puto que irá mentir sobre o lugar onde passou a Páscoa se tal actividade não incluir uma despesa superior a 1300€ em deslocações... bem, se não tivesse tantas preocupações financeiras e mais gosto em estar com a minha família, bem que me baldaria ao trabalho de Quinta-feira Santa e me poria depressa na primeira paisagem paradisíaca.

Por isso compreendo a atitude dos vermes que desejam luz e relva. Aliás, a maior parte das pessoas que os criticam são pessoas que (tanto quanto as conheço) seriam capazes de tal coisa, se em tal lugar e posição se encontrassem. Assim, se todos os deputados se consideram titulares de um cargo importante como “eleitos pelo povo”. Se a boa maioria deles não tem problemas em mandar a sua dignidade às urtigas e faltar a actos públicos depois de ter assinado a sua presença. Se o povo que os elege é o mesmo que os critica, para depois os voltar a eleger com grande alegria. Se quem por muitas vezes cometeu semelhante pecado na sua vida quotidiana é agora que atira a primeira pedra àquelas bichas-solitárias financeiras. Então não sei qual será o maior pecador, se os nossos pseudo-representantes se os pseudo-representados.

Mas uma coisa é certa, e vai de encontro do texto de RPS, no “Fado falado”, se os deputados portugueses não são grande coisa, a verdade é que o povo que os elege não lhes fica nada atrás.

Afinal de contas, a democracia actual, nada tem a ver com a democracia da Grécia antiga, muito pouco tem a ver com a democracia da I República Francesa. Na verdade a democracia que temos hoje é um fato comprado em segunda mão da França do General De Gaule, o qual, por nos ficar curto nas mangas foi depois remendado com uns panos da antiga colcha portuguesa e rematado com uns quantos enfeites para encher a vista ao povo. Talvez não fosse má ideia começarmos a despir o fato alugado aos franceses (aos quais o próprio fato parece não lhes servir muito bem nos dias que correm) e começarmos a desenhar um sistema político representativo próprio, menos interessado em dar ares de democracia, e mais interessado em preservar as liberdades e os direitos individuais.

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