23 abril, 2006

Re: A Casa do Pântano

Li hoje um artigo bastante antigo do Eduardo Pitta sobre o lamaçal que liga a Casa da Música à estação de Metro com o mesmo nome, aqui no Porto, junto à Boavista. Enquanto a inspiração não me aparece para escrever os meus posts dominicais deixo aqui um pensamento lateral à situação actual daqueles dois ou três quarteirões da cidade do Porto.

Quem quiser passear pela rotunda entre a Avenida de França e a Casa da Música, poderá repara que uma conhecida instituição bancária tem a sua loja num curioso edifício de dois pisos. Tal edifício é a antiga estação de caminhos de ferro de via estreita (bitola de um metro) que ligava o Porto do inicio/meio do século XX a Matosinhos, Guimarães (com extensão para Fafe) e Famalicão (Via Póvoa do Varzim). Logo após a travessia da Rua 5 de Outubro, ficava, como muitos de nós ainda sabem, a antiga recolha dos carros eléctricos do Porto, onde alguns dos nossos autocarros históricos encontraram também abrigo. Esta proximidade entre uma estação terminal dos caminhos de ferro da Companhia do Norte e a recolha central dos eléctricos veio a ser um dos primeiros casos da tão aclamada intermodalidade da qual o actual sistema de transportes da cidade do Porto é herdeiro.

Mais tarde, o caminho de ferro em via estreita foi desviado no sentido do centro da cidade do Porto (Estação da Trindade) tendo-se construído também a estação da Avenida de França e deixando-se ao abandono a antiga estação da Boavista. Com o passar dos anos as linhas dos eléctricos foram perdendo importância no conjunto dos transportes públicos do Porto, e aqueles dois pilares da primitiva intermodalidade do Porto permaneceram durante anos como oficinas de manutenção e reservatório de peças obsoletas.

A Estação da Boavista foi então transformada em loja bancária e a recolha dos eléctricos foi destruída para construção do mamarracho branco. Neste momento, enquanto nada se constrói, um lamaçal com alguns casarões abandonados é o último testemunho do bom planeamento em termos de mobilidade que ali se materializou.

Sinta-se portanto o Sr. Eduardo Pitta muito feliz por ter passado por aquele local se ter sido esmagado pela memória de um comboio para Guimarães.

20 abril, 2006

Faltas (de disciplina)

Falou-se na semana passada, que um grupo bastante ecuménico de marmanjos que se baldou ao trabalho para se poder fazer à estrada antes que a manada dos comuns mortais começasse a sua migração sazonal para sul, ao encontro de luz para os seus fatos de banho e pastos verdejantes para as suas bolas (de golfe, claro...). Honestamente, até eu, se não tivesse que andar a contar os trocos para passar um fim-de-semana mais folgado aqui no Porto; se tivesse um bom carro, uma vida calma e segura, se tivesse uma família que se recusasse a ter uma Páscoa virada para o que esse feriado realmente significa, se tivesse inclusive (como muitos daqueles ilustres senhores têm) um puto que irá mentir sobre o lugar onde passou a Páscoa se tal actividade não incluir uma despesa superior a 1300€ em deslocações... bem, se não tivesse tantas preocupações financeiras e mais gosto em estar com a minha família, bem que me baldaria ao trabalho de Quinta-feira Santa e me poria depressa na primeira paisagem paradisíaca.

Por isso compreendo a atitude dos vermes que desejam luz e relva. Aliás, a maior parte das pessoas que os criticam são pessoas que (tanto quanto as conheço) seriam capazes de tal coisa, se em tal lugar e posição se encontrassem. Assim, se todos os deputados se consideram titulares de um cargo importante como “eleitos pelo povo”. Se a boa maioria deles não tem problemas em mandar a sua dignidade às urtigas e faltar a actos públicos depois de ter assinado a sua presença. Se o povo que os elege é o mesmo que os critica, para depois os voltar a eleger com grande alegria. Se quem por muitas vezes cometeu semelhante pecado na sua vida quotidiana é agora que atira a primeira pedra àquelas bichas-solitárias financeiras. Então não sei qual será o maior pecador, se os nossos pseudo-representantes se os pseudo-representados.

Mas uma coisa é certa, e vai de encontro do texto de RPS, no “Fado falado”, se os deputados portugueses não são grande coisa, a verdade é que o povo que os elege não lhes fica nada atrás.

Afinal de contas, a democracia actual, nada tem a ver com a democracia da Grécia antiga, muito pouco tem a ver com a democracia da I República Francesa. Na verdade a democracia que temos hoje é um fato comprado em segunda mão da França do General De Gaule, o qual, por nos ficar curto nas mangas foi depois remendado com uns panos da antiga colcha portuguesa e rematado com uns quantos enfeites para encher a vista ao povo. Talvez não fosse má ideia começarmos a despir o fato alugado aos franceses (aos quais o próprio fato parece não lhes servir muito bem nos dias que correm) e começarmos a desenhar um sistema político representativo próprio, menos interessado em dar ares de democracia, e mais interessado em preservar as liberdades e os direitos individuais.

03 abril, 2006

Tamiflu

Apareceu hoje no meu correio electrónico esta mensagem, que não podia deixar de partilhar com os leitores do "Português Suave" que há mais de um mês não têm tido noticias minhas. O texto é um extracto do edital da revista espanhola, DSalude (edição de abril deste ano).



Sabes que o virus da gripe das aves foi descoberto há 9 anos no Vietname?


Sabes que em 9 anos só morreram 100 pessoas em todo o mundo?


Sabes que foram os americanos que alertaram pata a eficácia do TAMIFLU como preventivo?


Sabes que o TAMIFLU só atenua alguns sintomas da gripe comum?


Sabes que a sua eficácia ante a gripe comum é muito questionada pelos cientistas de todo o mundo?


Sabes que perante este virús aviário, que é mutante, ele apenas pode reduzir a enfermidade?


Sabes que a gripe aviária só afecta as aves?


Sabes quem comercializa o TAMIFLU? A ROCHE


Sabes a quem a ROCHE comprou a patente do TAMIFLU em 1996? à GILEAD SCIENCES INC.


Sabes quem era o Presidente da GILEAD SCIENCES INC e hoje principal accionista? DONALD RUMSFELD, actual Secretario de Defesa dos USA


Sabes que a base do TAMIFLU é o anís estrelado?


Sabes quem ficou com 90% da produção mundial deste produto? ROCHE?


Sabes que as vendas do TAMIFLU passaram de 254 milhões em 2004 para mais de 1000 milhões em 2005?


Sabes quantos milhões mais pode ganhar a ROCHE nos próximos meses se se prosseguir este negócio do medo?




Por fim, a mensagem de correio electrónico terminna com um apelo bastante sugestivo:


¿ESTAMOS LOCOS, O SOMOS IDIOTAS? AL MENOS PASALO PARA QUE SE SEPA.


E pronto, cá estou eu a passar a palavra.

06 março, 2006

S. José (II)

Hoje abri uma caixa de correio electrónico pouco usada, encontrei uma série de e-mails que me remeteram para o meu ainda menos usado perfil no orkut. Quando entrei vi aquela engraçada frase do dia, que no meu caso dizia qualquer coisa como “A sociedade prepara o crime, o criminoso comete-o”. Esta frase parece ter sido, talvez pelo seu conteúdo óbvio, o gatilho que me fez voltar a escrever sobre o tema do crime do Porto.

Ora, como pude ver no telejornal de domingo (o primeiro que vejo em dias, por razões profissionais), os media já mostram um certo esquecimento quanto aos acontecimentos da semana passada, e vão voltando lentamente a apimentar as complicadas questões do relacionamento entre o mundo ocidental e o Islão. Pelo meu lado, embora este não pareça ser este o meu último post que sobre a morte da Gi, faço variar a minha reacção entre o alívio por não termos entrado numa onda obsessiva de noticias sem interesse e o desânimo por se ter enterrado o caso e a memória antes do cadáver. Por outro lado, ainda é lamentavelmente compreensível que não se queira defender em praça pública os direitos de um homossexual enquanto ser humano.

Ora, é comum dizer-se que o povo português é de brandos costumes... agora, se os indivíduos que compõem um povo dizem que esse povo, enquanto colectivo é de brandos costumes, talvez seja esse povo constituído por indivíduos que, individualmente, não tenham nada de brando nos costumes deles. E talvez isso se note bem na forma branda como vemos os povo intrometer-e na vida alheia e na forma branda como se defendem a moral e os bons costumes de um povo que nunca os praticou. Este povo, dito de brandos costumes, costuma bradar bastante ser ele quem mais ordena, apesar de com tamanha taxa de analfabetismo funcional, bem que um pouco de bom senso recomendaria a entrega provisória do poder a alguém um pouco mais instruído. Este povo que é incapaz de ver alguém diferente a entrar-lhe pelas suas portas e cuja ignorância nos tem salvo da eleição de um qualquer partido de extremos. Este povo de Portugal tem, a meu ver, mais de arrogante do que de brando, e terá sido nesse ambiente de arrogância, intolerância e omnipotência da massa inculta que o crime foi forjado. Depois, como povo medroso que somos, os que dizem pelas ruas que aos homossexuais era dar-lhe porrada para aprenderem calaram-se perante o crime. Continuamos assim a nossa caminhada hipócrita, encorajando em pensamento o que não desejamos que seja levado avante por actos.

E no meio disto tudo esquecemos que também nós, cidadãos comuns deste país fomos vitimas deste crime. Todos os que se chocaram, todos os que se revoltaram, todos os que escreveram ou meditaram viram, com desânimo, o rumo que a nossa sociedade leva. Todos nós somos Giselas e é nesta condição dupla de criminosos e vitimas que temos que repensar o modo como a sociedade portuguesa enfrenta um mundo cada vez mais diversificado.

01 março, 2006

Memória!

E se o estimado leitor hoje acordasse e se sentisse num país de juízes parciais, onde a máxima do povo ser quem mais ordena ganha força de lei moral e a necessidade de manter a memória do passado surge mais como uma forma de ocultação de males mais recentes do que de um forma de respeito pela história? Parece-lhe este país familiar? Pois bem, eu hoje quase ia devolvendo o pequeno almoço à troposfera quando li o post de ontem do Apenso. Escreve o nosso amiguinho sem nome do seu escândalo por o antigo edifício da PIDE estar prestes a ser transformado num conjunto de apartamentos de luxo.

Ora, este protesto que no primeiro parágrafo até parece ser uma preocupação em manter um pedaço da história do país rapidamente se transforma numa espécie de propaganda contra o sistema democrático ocidental. E segue então o nosso amiguinho por aí abaixo, com umas frases soltas, em que lá dá a imagem de que com a reconstrução do edifício se está a lava a história, mas tal é a quantidade de frases feitas que, honestamente, deixei de saber qual das opções seria um maior insulto para a história portuguesa: se dar aval à dita obra, se dar ouvidos a este cérebro lavado. Como qualquer pessoa que preza a conservação da memória, também sou mais favorável à criação de um museu sobre a história do século XX naquele local... mas um museu, não um instrumento de propaganda.

Mas se o amiguinho quer, o amiguinho tem! Falemos então um pouco de história. Quando era miúdo apoiava e gostava muito da República Democrática Alemã, e não entendia o porquê de o nosso Portugal democrático não ter tantos problemas de relacionamento com esse país. Foi preciso que muros e cortinas caíssem à frente dos meus olhos para ver o paradoxo das duas Alemanha: a que se diz democrática era na verdade uma ditadura comunista e a outra, federal, que eu dantes entendia que era oposta à democrática e, portanto, uma ditadura, era uma economia de mercado próspera onde se podia circular e falar em liberdade, sem censuras nem polícia política. Foi então que me apercebi que democracia é um conceito diferente para democratas e comunistas. A minha democracia não é a do amiguinho, e, para nossa grande infelicidade (mas mais sua que minha!) nenhum dos nossos conceitos encaixa na realidade portuguesa. Ora, tenho aqui em casa uma série de antigos jornais e revistas que trazem escrita no seu cabeçalho a frase “Visado pela comissão de censura”. Acho que bastaria esta prova documental para deitar por terra a sua pseudo-tese de alguém andar a esconder as realidades da censura.

Mas o nosso amiguinho continua no seu ar de revolucionário a criticar reformas e condecorações de antigos agentes da polícia política como se de privilégios se tratassem. A menos que ache que só deveria ser permitido o livre pensamento para quem apoiar ditaduras de esquerda, acho que se esses homens concordam ou não com o regime do Estado Novo (fascismo foi em Itália e se o amiguinho entendesse um pouco de história veria que, apesar se serem ambas bastante repressivas, são formas de governo diferentes) não tem nada a ver com a reforma que qualquer pessoa deverá receber quando executa o seu papel em termos profissionais, e esses homens foram, para todos os efeitos, funcionários do estado. Ora, se o amiguinho acha isto um privilégio, recordo-lhe que privilégio significa, etimologicamente «lei privada», ou seja, uma lei feita à medida de alguns indivíduos. Num país onde se esperou pela prescrição dos processos das FP25 e do assassinato de Sá-Carneiro para se começarem a promulgar leis que permitam a agilização da justiça, parece que os verdadeiros privilegiados foram os assassinos e bombistas que trabalharam em nome desse seu conceito estranho de democracia...