06 novembro, 2006

Paranóia

A propósito das novas regras para embarque nos aeroportos da Europa, Noruega, Islândia e Suíça decidi pesquisar na Wikipedia se a palavra paranóia aparecia na cabeça apenas por paranóia minha contra as medidas de segurança. Ora, corrigindo um ou outro pequeno erro de digitação (todos cometemos) aqui segue a definição enciclopédica:

Doença psiquiátrica cuja característica central é um delírio bem organizado (ideia falsa não sujeita a discussão racional), auto-referenciada e geralmente com teor persecutório; o termo é também usado vulgarmente para designar a mania da perseguição.

Ora, o que podemos entender por delírio bem organizado? É natural ter medo de um rapto no ar, ou de um atentado na rua. Mas nos anos 80 lembro-me de alguns aviões terem havido bombistas suicidas a fazer explodir aviões em pleno ar e não foi por isso que se apertaram as medidas de segurança. Aliás, talvez tenha sido impressão minha, mas segundo a história dos aviões do 11 de Setembro, os raptores limitaram-se a utilizar facas e canivetes para tomar posse do avião... e se é assim que os membros da Al-Qaeda preferem actual – o que, aliás é reforçado na sua lógica pela maior quantidade de vítimas – não entendo porque temos tanto cuidado com a entrada de líquidos.

No paranóico, um sistema delirante amplo e totalmente desfasado da realidade pode coincidir com áreas bem conservadas da personalidade e do funcionamento social do sujeito, pelo que a repercussão da paranóia no funcionamento geral do indivíduo é muito variável - a bizarria dos comportamentos do indivíduo depende do âmbito mais ou menos restrito do sistema delirante, pois a atitude geral é coerente com as convicções e suspeitas; por exemplo, quando o delírio é amplo, integrando todos os familiares ou colegas de trabalho num conflito prejudicial ao sujeito, as suas atitudes de defesa e/ou de vingança tornam-se tão inadequadas e graves que conduzem a graves defeitos pessoais e sociais. Os conteúdos típicos dos delírios incluem a perseguição, o ciúme, o amor (erotomania) e a megalomania (crença na própria posição e poder superiores).

Os conteúdos dos delírios podem incluir a perseguição, o amor e a megalomania. Não vamos mencionar o facto de podermos ser parados e retidos num aeroporto apenas pelo sobrenome arábico, pelo aspecto ou apenas pelo facto de usarmos algum tipo de adereço que possa ser conotado com a religião islâmica. Sabemos bem que se há pessoas que são retidas nos aeroportos ou revistadas sem causa aparente, é porque no cimo da hierarquia há um grande irmão que nos ama. Somos preciosos produtores de riqueza para o estado e para alguns homens de negócios, e a eventualidade de algo de mal nos acontecer colectivamente representará um menor lucro no fim do ano.

Tudo isto acontece porque a nossa civilização, democrática, capitalista e ocidental é superior a todas as outras. Somos os melhores, e por isso alvo da inveja e das bombas das civilizações menos desenvolvidas. Pergunto-me, porém, se não é nos países árabes que encontramos a menor taxa de analfabetismo do mundo. Já agora, a Indonésia, que é o maior país muçulmano do mundo já teve (não sei se ainda não tem) uma mulher como presidente da república, coisa até hoje nunca vista nos Estados Unidos ou na França. Já agora, se hoje pensamos nos países árabes como países produtores de petróleo, esquecemos que até ao século XIX, a principal exportação destes países eram as especiarias e as artes (ornamentos, artefactos de arquitectura, etc). Não estamos portanto a falar da versão Magrebina-Asiática dos cowboys texanos que um dia viram um líquido negro e começaram a fazer negócio com ele, mas com povos com um passado cultural que poucos países ocidentais se podem orgulhar de ter. Não creio que sejamos superiores: somos diferentes, e tanto entre ocidentais como entre muçulmanos há uma vontade expressa em continuarmos a ser diferentes, e não é por isso que têm havido guerras: há guerras exactamente quando tentam fazer de nós todos humanoides chapa nove.

Por outro lado, a China também é uma civilização diferente da nossa, onde o custo de uma vida humana pode ser reduzido ao máximo, onde a luta pelos direitos fundamentais é recompensada com expropriações e penas de cadeia (quando não execuções). Mas isso não parece interessar...

Habitualmente, não existem outros sintomas de doença mental. No entanto, a ira, as suspeitas e o isolamento social marcam uma crescente modificação no indivíduo, no sentido de uma alteração do comportamento, que se torna cada vez mais excêntrico. Os paranóicos raramente se vêem a si próprios como doentes e geralmente só recebem tratamento quando amigos ou parentes os forçam a isso.

Passei bastante do volume de texto que normalmente apresento aqui, mas este último pedaço da definição é puramente delicioso. Fica como exercício pensar no que seria se na definição da doença, lessem qualquer coisa deste tipo:

Habitualmente, não existem outros sintomas de doença mental. No entanto, a ira, as suspeitas e o isolamento económico-social marcam uma crescente modificação na sociedade, no sentido de uma alteração do comportamento, que se torna cada vez mais excêntrico. As sociedades paranóicas raramente se vêem a si mesmas como doentes e geralmente só recebem tratamento quando os povos os forçam a isso.

Sem comentários: