16 outubro, 2006

Portugueses

Vi ontem o episódio numero um do novo programa da D. Maria Elisa. Ao que parece, a pobre senhora percorreu o país de norte a sul para ser filmada em peças de dois minutos e meio a dizer exactamente a mesma coisa:

“Vote, escolha o português que blá blá blá, que mais o blá blá blá... Neste programa vamos blá blá blá, sobre os dez portugueses mais blá bla blá. E por fim escolher o português que mais blá blá blá.”

Este programinha estúpido e mesquinho, semelhante à massa humana que a essa hora se detém noutros canais de televisão, ignora o principio básico de qualquer avaliação histórica. Por isso propõem os excelentíssimos senhores da televisão (por agora não menciono os entrevistados de rua) personalidades como Eusébio, Amália ou Mourinho, para não falar no senhor Bocejas e nos seus sucessores no título de chefe de estado. A quem poderá interessar que se mencionem estes nomes? Afinal, se escutarmos a vós dos entrevistados de rua, vemos que, se tivermos muito boa fé, se formos muito inocentes e não olharmos para a forma bonita de manipulação das opiniões que tem sido levada a cabo na publicidade e neste primeiro episódio, se formos mesmo uns campeões da reciclagem intelectual do que possa passar na televisão portuguesa, então aí poderemos entender este programa como sendo a escolha do nome que mais soa ao ouvido dos portugueses. E nesse aspecto, Vasco Polido Valente, no Público de ontem faz uma aposta dupla para primeiro lugar, entre D. Afonso Henriques (não sei porque carga de água as pessoas agora escrevem o nome do primeiro rei sem o Dom que lhe é merecido) e a Amália Rodrigues, senhora do nosso tempo cujo nome é o único mencionado em todos os anúncios ao programazinho. À aposta de VPV, acrescento eu mais duas, a de D. Sebastião e a de Camões.

D. Sebastião aparece aqui não por aquilo que fez, mas pelo mito que se criou. É claro, o português vulgar não sabe de história, e se existe no seu imaginário popular a lenda de um rei que haveria de voltar para nos levar à glória, então é porque esse rei é que era um grande português. Quanto ao Camões, será certamente um na lista dos dez mais votados, não tanto pelo muito que fez (e nesse sentido certamente mereceria o lugar no top10), mas pelo facto de ser tradição dos portugueses dar a entender a cultura que não têm, e nesse aspecto, dizer que se admira Camões fica bem, assenta como uma luva. Um tipo diz que admira Camões e logo outros se calam.... um pouco como dizer numa conversa de arte que se admira Dali... é um nome que define um certo conceito de bom gosto, mesmo saindo da boca de quem não sabe nada dele.

Mas a ver vamos...

Sem comentários: