29 setembro, 2006

Bento Refogado

Tenho compensado a minha falta de paciência para escrever um post completo sobre o assunto quente da semana passada com alguns comentários que fui espalhando por aí, em alguns blogs de referência e noutros que nem tanto.

Uma das comparações mais frequentes que aparecem por essa blogosfera é a comparação entre a citação do Papa (ou será a do teólogo Ratzinger?) e o caso das caricaturas do jornal regional de extrema direita na Dinamarca. Quando aconteceu essa crise, estava eu a iniciar esta aventura em português suave, ainda muito ao estilo do português suave dos anos 20. Nessa altura, defendi com unhas e dentes os muçulmanos, ou antes, ataquei com garras e caninos, o jornal dinamarquês e toda a comunicação social que usa o direito à liberdade de expressão para insultar gratuitamente seja quem for.

Em primeiro lugar, como referi, no caso da caricatura, estamos, ou estivemos perante um insulto gratuito de um jornal de extrema direita à religião islâmica. Curiosamente, todos os jornais do mundo ocidental vieram apoiar esse jornal de pouca tiragem. Tal ataque, na altura, foi muito bem explorado pelos media, como forma de vender a imagem de perigo. Foi, depois da invasão do Iraque, o momento de maior adesão de muçulmanos às causas dos radicais. Mas também do nosso lado, foi a altura em que nas entrelinhas das crónicas dos jornais e dos blogs se lia uma apologia à invasão dos países árabes que, por se indignarem perante um ataque gratuito, feriam os sentimentos do mundo ocidental. Como comentei no posto do The Cat Scatts, no discurso "papal", Bento XVI menciona explicitamente que se tratam de citações de textos antigos, contextualizados por um discursos que só passado dias, alguns orgãos informativos se dignaram a publicar na íntegra, ou em versão mais alargada.

Aliás, os media, agora que a guerra no Iraque não vende metade do que vendia há um ano atrás, e que a crise nuclear iraniana está a seguir o ritmo das mornas reuniões de trabalho, necessitavam de uma nova crise, de mais atentados, de alguma coisa que fizesse as pessoas ficar coladas ao televisor e ao jornal em vez de saírem de casa para apanhar ar fresco e descontrair. Por isso a exploração das citações, a mostra de protestos nas ruas, o relevo internacional de um graffiti numa mesquita francesa quando em toda a Europa igrejas e cemitérios são volta e meia alvo de iguais mimos... é importante que se mostre uma civilização contra a outra, só assim podemos ficar coladinhos ao televisor.

Na minha forma de ver a vida, é contra natura que alguém faça algo se não tiver nada a ganhar, sendo mesmo uma violação grave das leis naturais que alguém faça algo que o prejudique a si mesmo. Bento XVI não tinha nada a ganhar com tal discurso... os media ganharam muito com tal descuido.

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