25 julho, 2006

Rivoli

Este sábado comprei o jornal para o poder ler durante a semana... não me quis limitar a ler na diagonal os títulos e uma meia dúzia de notícias que a televisão rapidamente será capaz de actualizar. Apeteceu-me ler o jornal, que mal poderá haver nisso? Vi no JN algo que nenhuma televisão parece ter falado até agora, algo que me parece mais grave que a passagem de modelos em S. Paulo ou os jogos amigáveis de pré-época dos três principais clubes portugueses contra os amadores de cú-de-judas.

Estou a falar da possível venda do teatro municipal Rivoli a uma produtora privada, a qual será escolhida segundo aquele processo extremamente justo e transparente que é o concurso público. Isto traz dois pontos importantes à baila: por um lado, não sei quem irá, em última análise comprar o teatro, por outro lado... enfim... esta coisa dos concursos públicos sempre me deu um pouco a volta à cabeça. Em primeiro lugar, parece estranho que, numa era em que o Ministério da (baixa) Cultura se aplica em fornecer um teatro municipal a todos os concelhos do país, a câmara da segunda principal cidade do país se aplique em saltar fora desse projecto, vender o seu teatro municipal, e assobiar para o lado quando os preços dos bilhetes desse equipamento catapultarem dos 25 euros, para um lugar de segunda plateia numa noite de teatro, para os 60 euros, para um lugar na última fila do balcão. Ao que parece não faltam por aí produtores de teatro a sonhar em ter o seu próprio teatro. Mas como a maior parte dos produtores, penso eu, não terão dente financeiro capaz de morder o Rivoli será provável que o futuro ex-teatro municipal do Porto acabe vendido a um consórcio de um banco com um produtor de baixa categoria, sem bom gosto nem gosto pelo teatro a sério, como seja o mais conhecido encenador/produtor de espectáculos musicais da praça de Lisboa. Acontece que, mesmo esses senhores capazes de fazer a gente rude da cidade levantar o rabo dos seus cadeirões domésticos e pô-los sentados e a aplaudir num banco de teatro, um dia terão os seus espectáculos às moscas. E então virá o senhor presidente da administração, em nome do Pai, do Filho e do banco Espírito Santo e comercial de Lisboa, presidir à cerimónia de encerramento do teatro e emparedamento das portas e vidraças.

Agora, quanto à segunda questão, por volta do século XV, Isabel I de Inglaterra, de seu cognome, a Católica, por ser a última soberana de Inglaterra que era capaz de vender o seu povo e pátria ao Papa, nomeou, William Byrd, compositor católico e inglês, como detentor exclusivo do direito de produzir papel para música em todo o reino de Inglaterra. Tal nomeação assentou em dois motivos: o senhor sabia compor boa música e era católico, tal como a rainha. Pese embora estes motivos arrepiem a espinha aos mais acérrimos defensores do actual regime, a verdade é que se trata de uma nomeação perfeitamente transparente e, de certa maneira, justa. Ao menos não se escondem os motivos de tal nomeação com floreados de viabilidade económica, não houve a hipócrita preocupação em saber se o compositor iria reciclar o papel excedentário ou se iria usar tintas amigas do ambiente; em ponto nenhum da carta de nomeação a rainha mostra preocupação com a existência de algum estudo geológico que viabilize a passagem do papel de música por debaixo das casas. A rainha estava pouco interessada nos pormenores técnicos, do mesmo modo como as actuais comissões políticas que tratam dos concursos públicos se interessam em saber dos impactos no ambiente, na economia, no orçamento de estado ou na qualidade de vida dos cidadãos. O interesse era conceder o privilégio e o pagamento a alguém a quem sejamos afeiçoados, seja pela sua arte, ou pelas noites de bebedeira nos tempos da universidade, ou pelas prendinhas que o senhor empreiteiro traz todos os anos pelo Natal. No entanto, quinhentos anos antes, essas preocupações não eram disfarçadas por detrás de umas regras de concurso público que balizam o chamado interesse público numas especificações de clareza e interesse duvidosas.

Na verdade, não nos tornamos mais cientes do interesse público... apenas mais hipócritas.

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