01 março, 2006

Memória!

E se o estimado leitor hoje acordasse e se sentisse num país de juízes parciais, onde a máxima do povo ser quem mais ordena ganha força de lei moral e a necessidade de manter a memória do passado surge mais como uma forma de ocultação de males mais recentes do que de um forma de respeito pela história? Parece-lhe este país familiar? Pois bem, eu hoje quase ia devolvendo o pequeno almoço à troposfera quando li o post de ontem do Apenso. Escreve o nosso amiguinho sem nome do seu escândalo por o antigo edifício da PIDE estar prestes a ser transformado num conjunto de apartamentos de luxo.

Ora, este protesto que no primeiro parágrafo até parece ser uma preocupação em manter um pedaço da história do país rapidamente se transforma numa espécie de propaganda contra o sistema democrático ocidental. E segue então o nosso amiguinho por aí abaixo, com umas frases soltas, em que lá dá a imagem de que com a reconstrução do edifício se está a lava a história, mas tal é a quantidade de frases feitas que, honestamente, deixei de saber qual das opções seria um maior insulto para a história portuguesa: se dar aval à dita obra, se dar ouvidos a este cérebro lavado. Como qualquer pessoa que preza a conservação da memória, também sou mais favorável à criação de um museu sobre a história do século XX naquele local... mas um museu, não um instrumento de propaganda.

Mas se o amiguinho quer, o amiguinho tem! Falemos então um pouco de história. Quando era miúdo apoiava e gostava muito da República Democrática Alemã, e não entendia o porquê de o nosso Portugal democrático não ter tantos problemas de relacionamento com esse país. Foi preciso que muros e cortinas caíssem à frente dos meus olhos para ver o paradoxo das duas Alemanha: a que se diz democrática era na verdade uma ditadura comunista e a outra, federal, que eu dantes entendia que era oposta à democrática e, portanto, uma ditadura, era uma economia de mercado próspera onde se podia circular e falar em liberdade, sem censuras nem polícia política. Foi então que me apercebi que democracia é um conceito diferente para democratas e comunistas. A minha democracia não é a do amiguinho, e, para nossa grande infelicidade (mas mais sua que minha!) nenhum dos nossos conceitos encaixa na realidade portuguesa. Ora, tenho aqui em casa uma série de antigos jornais e revistas que trazem escrita no seu cabeçalho a frase “Visado pela comissão de censura”. Acho que bastaria esta prova documental para deitar por terra a sua pseudo-tese de alguém andar a esconder as realidades da censura.

Mas o nosso amiguinho continua no seu ar de revolucionário a criticar reformas e condecorações de antigos agentes da polícia política como se de privilégios se tratassem. A menos que ache que só deveria ser permitido o livre pensamento para quem apoiar ditaduras de esquerda, acho que se esses homens concordam ou não com o regime do Estado Novo (fascismo foi em Itália e se o amiguinho entendesse um pouco de história veria que, apesar se serem ambas bastante repressivas, são formas de governo diferentes) não tem nada a ver com a reforma que qualquer pessoa deverá receber quando executa o seu papel em termos profissionais, e esses homens foram, para todos os efeitos, funcionários do estado. Ora, se o amiguinho acha isto um privilégio, recordo-lhe que privilégio significa, etimologicamente «lei privada», ou seja, uma lei feita à medida de alguns indivíduos. Num país onde se esperou pela prescrição dos processos das FP25 e do assassinato de Sá-Carneiro para se começarem a promulgar leis que permitam a agilização da justiça, parece que os verdadeiros privilegiados foram os assassinos e bombistas que trabalharam em nome desse seu conceito estranho de democracia...

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