22 fevereiro, 2006

Ainda o Islão

Demorei um pouco até voltar a querer escrever sobre este tema. Desta vez decidi passar do comentário ao único episódio de relevo que toda esta polémica teve em Portugal (ou na Espanha Ocidental, se não nos demarcarmos rapidamente de certas atitudes prepotentes do resto da Europa tanto a nível interno como externo). Tomei algum tempo para ler o que se tem dito aqui na blogosfera nacional acerca das caricaturas em si. Gostava de poder resumir esta questão a um único artigo (na verdade não me apetecia nada isso... estou a adorar o debate que tem aparecido e tenho aprendido bastante com isso), por isso é natural que este artigo vá tendo sequelas de tempos a tempos.

N' “O Canhoto”, no artigo tem a data de 31 de Janeiro, existe uma discussão muito interessante sobre o título “Somos todos dinamarqueses”. Neste artigo, Rui Pena Pires refere “é importante esclarecer que não deve ser aceite o argumento do “insulto à religião” (neste caso islâmica). Só faz sentido falar em insulto quando dirigido a indivíduos concretos, não a ideias. Além do que insulto não é o mesmo que ridicularizarão de uma ideia de outrem, mesmo que esse outrem sacralize essa ideia”. Ora, tal como o Rui Pires, também eu sou da opinião que se devem respeitar pessoas e não ideias, e estou certo que se não fosse essa posição é o garante da evolução das ideias e, em última análise, da civilização. No entanto, quanto mais eu leio sobre esta crise, mais me vou convencendo que o problema está em saber, quando se fala de religião, onde acaba a pessoa e começa a ideia.

Em primeiro lugar, não considero o individuo como sendo apenas um corpo humano. Creio que este ponto será bastante consensual, pelo que não me deterei muito nele. Acho que o insulto ou ridicularização de um individuo devido às suas características físicas serão vistas por todas como de mau gosto, quando não xenófobas ou racistas. Temos como exemplo disso o olhar reprovador com que as sociedades pluralistas colocam quando alguém publicamente chama preto a um individuo de raça negra, ou menciona a “bicanca” dos semitas.

Um individuo num estado não vegetativo não se irá limitar a respirar, comer, beber, movimentar-se e não pensar; sendo então no campo das ideias que podemos dividir dois territórios diferentes: por um lado temos as ideias de ordem prática, politica ou circunstancial, os padrões de estética, o gosto por determinado desporto, hobbie ou indivíduo. São tipos de ideias nas quais todos nós já experimentamos mudança. Todos nós lembramos aquele ídolo da adolescência que hoje somos incapazes de olhar sem que nos dê a volta ao estômago, todos nós mudamos e nenhum de nós será capaz de tomar como ofensa uma critica, jocosa ou severa, a essas ideias.

No outro lado do campo das ideias, podemos ter o que consideramos “princípios do ser”, isto é, todo um conjunto de ideias, às quais estamos ligados de tal forma que as usamos para nos caracterizar, nos identificarmos com determinado grupo sócio-cultural, e nos distinguirmos da massa humana à volta. Dentro deste tipo de ideias, incluo, sem dúvidas, a religião, enquanto elemento de identificação com a comunidade envolvente. Neste aspecto, acho que é perfeitamente legitimo ponderar até que ponto a publicação das caricaturas não ofendeu cada um dos muçulmanos deste mundo.

Talvez aqui no mundo ocidental tenhamos vindo a substituir o conteúdo desse campo das ideias que nos caracterizam. Talvez tenhamos substituído a religião pelo nosso grupo social ou simplesmente estejamos em vias de extinguir esse grupo de ideias. Aliás, a prova da desertificação em ideias que nos caracterizam reside no facto de ter andada a ser agitada a liberdade de expressão como bandeira do ocidente e eu – e, como eu, muitos – não considerarmos que essa bandeira possa ter força suficiente para congregar todo o mundo ocidental... e ainda assim permaneço tão ocidental, pluralista e português como os demais...

1 comentário:

João disse...

Like the British say: "Here, here!"*

* Numa tradução muuito livre para Português corrente: "Ah, ganda homem!"